Ema Bovary e o Barco Bêbado – Alegorias de uma época

            A personagem Ema Bovary, criada por Gustave Flaubert (1821-1880) em sua obra-prima mais emblemática, lançada em 1857, Madame Bovary, não só pode ser encarada como um símbolo da condição feminina na Europa no século XIX, mas como um emblema dos rumos tomados pela sociedade ocidental após o advento da Revolução Industrial. O presente texto pretende elucidar tal afirmativa por meio de uma comparação entre Ema e O barco bêbado, “biopoema” [1] de Arthur Rimbaud (1854-1891), um dos mais representativos exemplos de como a sociedade européia do século XIX influenciou a vida (e a arte) daqueles que a ela não souberam se adaptar.

            A personagem criada por Flaubert demonstra extrema dificuldade em se adaptar à realidade na qual encontra-se inserida. Em um primeiro momento, sua vida de solteira lhe parece enfadonha e incompleta, ao conhecer e casar-se com Carlos, a vida de casada se lhe apresenta tediosa e castradora, nem mesmo seus casos extraconjugais parecem satisfazer o voraz apetite de sua imaginação. Ela recorre, freqüentemente, a lembranças e cenas hipotéticas para delas tirar o pouco de alegria e esperança que ainda é capaz de ter.

            O sexto capítulo da segunda parte do romance de Flaubert é bem sintomático do mal-estar sentido por Ema e, também, dá-nos a possibilidade de estabelecer conexões com a obra de Arthur Rimbaud. Nesse capítulo, Ema encontra-se casada e já se sabe apaixonada por Leon, um de seus amantes. Após ter seguido cegamente seus impulsos mais uma vez (casara-se por impulso e por impulso aproximava-se de Leon), ela se vê novamente infeliz e recorre a lembranças do tempo em que era estudante: “aquele badalar contínuo fez o pensamento de Ema dirigir-se para suas velhas lembranças da meninice e do colégio (…). Quisera estar ainda, como antigamente, confundida entre a linha externa dos véus” [2]. Fica explícita a insatisfação de Ema com sua presente situação quando o narrador afirma que ela quisera estar ainda, como antigamente, levando sua vida de outrora.

            Esse sentimento de não-adaptação à realidade imediata é bem típico e bastante presente em obras literárias após a Revolução Industrial. As mudanças que trouxe consigo fizeram com que tal revolução e suas conseqüências desencadeassem em várias pessoas um apego extremo ao passado, a um mundo que não mais existia. Muitos foram aqueles que se mostraram insatisfeitos com os rumos tomados pela sociedade européia então, em especial artistas. Arthur Rimbaud foi um deles.

            Em um de seus mais emblemáticos poemas, O barco bêbado, Rimbaud exprime tal sentimento por meio da alegoria de um barco que se vê solto a vagar pelo mar. Primeiramente, esse vagar lhe parece interessante e ele se entrega a tal aventura, como as seguinte estrofes demonstram:

 

O vento abençoou minhas manhãs marítimas.

Mais leve que uma rolha eu dancei nos lençóis

Das ondas a rolar atrás de suas vítimas,

Dez noites, sem pensar nos olhos dos faróis!

 

Mais doce que as maças parecem aos pequenos,

A água verde infiltrou-se no meu casco ao léu

E das manchas azulejantes dos venenos

E vinhos me lavou, livre de leme e arpéu.[3]

 

 

            Como Ema, o barco deixa-se levar pelo fluxo dos acontecimentos: ela se casa e se enamora por um outro homem; ele, o barco, se entrega sem resistência e mergulha “nas águas do Poema / Do Mar” [4]. No entanto, suas entregas se lhes apresentam como portadoras de um aspecto negativo com o qual não contavam. O casamento de Ema acabou por se mostrar frustrante e seu caso adúltero não lhe dava a felicidade esperada, o que a faz se refugiar em lembranças. O barco de Rimbaud, após entregar-se ao Poema do Mar e vislumbrar tanto quanto foi a ele apresentado, se assusta e anseia por uma volta a sua condição original de submisso às vontades de uma tripulação européia: “Da Europa a água que eu quero é só o charco” [5], e não mais o alto-mar inebriante. Ambos os personagens, após terem se entregado às suas paixões de forma plena e efetiva, arrependem-se e desejam um passado ao qual não têm mais acesso.

            Outras semelhanças podem ser ainda estabelecidas entre a trajetória do barco bêbado e de Ema Bovary. Após certa pausa bem-vinda em sua jornada, o barco é novamente “lançado no ar sem pássaros pela torrente” [6]. Ele, que chegou a se considerar uma “quase ilha” [7] devido a uma proveitosa estabilidade, agora se refere a si mesmo como “barco perdido em baías e danças” [8] e “prancha louca a correr” [9]. A segurança, estabilidade e felicidade alcançadas quando da entrega à paixão dão lugar a um sentimento assustador de total perda de rumo. Tal sentimento é também experimentado por Ema após lembrar-se de sua infância e, posteriormente, encontrar-se em sua vida adulta: “sentiu-se fraca e desamparada como se fora uma pluma de ave a voltear na tempestade” [10].

            Tanto Ema, quanto o barco, tendo tentado escapar de sua realidade, encaram as conseqüências negativas de tal ato e, devido ao fato de não serem capazes de encontrar um meio-termo entre a vontade de voltar a uma época já inexistente e a necessidade de viverem o presente, passam a encarar a vida como uma implacável sucessão de sofrimentos. Escreve Rimbaud: “Toda lua é cruel e todo sol, engano” [11], ou seja, não há alívio para a noite cruel que se abate sobre o barco errante e, assim, as palavras do padre a quem Ema recorre em busca de auxílio, no mesmo sexto capítulo, não poderiam ser mais apropriadas: “Nascemos para sofrer” [12].

            Em conseqüência de tal perspectiva, o barco e Ema anseiam pela aniquilação de suas existências. O barco deseja ser destruído e tragado pelas águas – “Ah! Que esta quilha rompa! Ah! Que me engula o oceano!” [13] – e Ema busca a Igreja “disposta a qualquer devoção, contanto que nisso absorvesse o espírito, que nisso ocultasse a existência inteira” [14].

            Cabe aqui a lembrança de que Flaubert já disse, em célebre colocação, ser, ele mesmo, Madame Bovary e, como mencionado no início do presente texto, Augusto de Campos, considera O barco bêbado um “biopoema”, uma vez que a obra apresenta várias semelhanças com aquilo que viria a se passar na vida de seu autor. Tendo isso em mente, é plausível afirmar que ambos os autores se valeram de suas criações para retratar sua própria condição de não-adequados ao então novo modo de vida europeu. Se levarmos em conta o que escreve Henry Miller (1891-1980), um dos mais declarados admiradores de Arthur Rimbaud, em seu livro A hora dos assassinos – Um estudo sobre Rimbaud, podemos ter um entendimento mais preciso do que homens como os dois escritores franceses aqui enfocados representam: “Esses homens estão profundamente ligados ao espírito da época, aos problemas graves que lhe são inerentes e lhe imprimem caráter e tom. São sempre dúplices (…) posto que encarnam simultaneamente o velho e o novo” [15].

            Ema e o barco de Rimbaud encarnam simultaneamente o velho e o novo, assim como seus criadores e são, portanto, marcos na concepção que temos hoje do que foi a arte, o que foi ser artista, e a vida em si com o advento dos efeitos de uma enorme revolução. Como o presente texto pretende mostrar, esses efeitos podem ser debatidos e estudados ainda hoje, principalmente, pelo que escreve Henry Miller em 1956: “existem muitos Rimbauds pelo mundo afora” [16] e muitas Emas, e barcos, e Faluberts e, ainda, segundo o romancista americano, “esse número aumentará com o passar dos anos” [17].

 

BIBLIOGRAFIA

 CAMPOS, Augusto de. “Alguns Rimbauds”. Rimbaud Livre. 2 ed. São Paulo:

            Editora Perspectiva, 2002.

 FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Trad. Enrico Corvisieri. São Paulo:

            Nova Cultural, 2002.

 MILLER, Henry. A hora dos assassinos – Um estudo sobre Rimbaud. Trad.

            Milton Persson. Porto Alegre: L&PM, 2004

 RIMBAUD, Arthur. Rimbaud Livre. Trad. Augusto de Campos. 2 ed. São Paulo:

            Editora Perspectiva, 2002.

 Encyclopaedia Britannica Deluxe Edition 2004 CD-ROM

 http://www.kirjasto.sci.fi/flaubert.htm, acessado em 19/01/2006

 

 


[1] Termo cunhado por Augusto de Campos no texto introdutório de Rimbaud livre, “Alguns Rimbauds”, para se referir à conexão entre o que é descrito no poema Lê Bateau Ivre (ou “O barco bêbado”, em sua tradução. Tradução essa que será utilizada como base para a feitura do presente texto) e os rumos tomados pela vida de seu autor. Escreve Campos: “Como negar a congruência do poema com os futuros passos da vida de Rimbaud – suas viagens disparatadas, sua ruptura com o mundo civilizado da Europa, seu isolamento final, sua renúncia à poesia, seu silêncio – projetados na alegoria do barco anárquico, vidência ratificada pela vivência.”: CAMPOS, A., 2002, p. 16

[2] FLAUBERT, G. , 2002, p. 134

[3] RIMBAUD, A. , 2002, p. 30

[4] RIMBAUD, A. , 2002, p. 31

[5] RIMBAUD, A. , 2002, p. 35

[6] RIMBAUD, A. , 2002, p. 33

[7] RIMBAUD, A. , 2002, p. 33

[8] RIMBAUD, A. , 2002, p. 33

[9] RIMBAUD, A. , 2002, p. 35

[10] FLAUBERT, G. , 2002, p. 134

[11] RIMBAUD, A. , 2002, p. 35

[12] FLAUBERT, G. , 2002, p. 136

[13] RIMBAUD, A. , 2002, p. 35

[14] FLAUBERT, G. , 2002, p. 134

[15] MILLER, H. , 2004, p. 45

[16] MILLER, H. , 2004, p. 15

[17] MILLER, H. , 2004, p. 15

 

Anúncios

~ por tarsodoamaral em 08/09/2008.

2 Respostas to “Ema Bovary e o Barco Bêbado – Alegorias de uma época”

  1. Muito bom texto, como as coisas continuam a acontecer da mesma forma: luta e resistência pelo novo e o desprezo e saudade pelo velho, como tudo isso parece tão familiar. Ótimo!!

  2. Raul, valew!
    O pior é notar que muitas pessoas não conseguem perceber isso: que as questões ainda são as mesmas desde o advento da Revolução industrial e que, muitos dos caras que hoje um bando de gente não dá muita bola como Marx, Nietzsche e Freud, assim como os artistas daquela época, tocaram em questões centrais até para nós que vivermos no Século XXI.
    t+!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: