Breve Comentário sobre Washington Square de Henry James

            Henry James me foi fonte de interesse desde que comecei a estudar de forma mais aprofundada literatura moderna. Seja por sua fantástica obra em si, seja pela influência que exerceu em vários dos autores a quem mais admiro, vide James Joyce, assim como pela influência por ele sofrida de tantos outros escritores a quem igualmente admiro, por exemplo, Laurence Sterne.

            Recentemente, tive a oportunidade de explorar um pouco mais a obra desse excepcional romancista e teórico do formato romanesco. Li duas de suas mais populares obras: Washington Square e The Turn of The Screw. Washington Square um romance sobre as desventuras amorosas e auto-conhecimento de uma jovem americana na primeira metade do século XIX; The Turn of The Screw uma estória de suspense e terror na qual, novamente, uma jovem se vê atormentada por fantasmas e por sua própria mente enquanto tem de cuidar de um casal de irmãos pequenos.

            Ambos os livros são fantásticos, cada um por seus méritos, sendo latentes em ambos não só o enorme talento de James, mas também questões sobre a formação da ainda nascente nação norte-americana, assim como da posição da mulher e do artista na, então já em pleno vigor, nova sociedade ocidental pós-Revolução Industrial. No entanto, no presente texto, tratarei apenas de um deles, Washington Square    

Henry James não era o maior fã dessa sua obra. Bem pelo contrário: ele não gostava desse romance de sua autoria. Segundo o próprio James, a única coisa de bom no romance era a personagem principal, Catherine Sloper. É válido perguntarmo-nos o porque da aversão pela obra em si, mas não por sua protagonista.

            No meu ponto de vista, Catherine representa, na verdade, não só os questionamentos enfrentados pelo artista-romancista, Henry James, mas também pelo próprio ainda bastante jovem país de origem do escritor, os Estados Unidos, e alguns de seus mais oprimidos habitantes, as jovens mulheres.  Claro que tudo recoberto por uma trama que gira em torno das relações familiares e amorosas de Catherine.

Além de Catherine, três outros personagens têm proeminência no romance: seu pai Dr. Sloper; sua tia Mrs Penniman; e seu pretendente Mr Morris Townsend.

            Dr. Sloper representa uma visão mais tradicional, pragmática e bastante opressiva na vida de Catherine. Ele é contrário ao uso da imaginação e se considera inteligente o bastante para conhecer o caráter de uma pessoa em um primeiro olhar, assim como por pensar saber o que é melhor ou pior para sua filha, uma idiota, em sua opinião.

            Sua tia, Mrs Penniman, simboliza uma concepção exageradamente romântica da vida e tenta interferir na vida de sua sobrinha com o intuito de tentar fazer com que ela, a sobrinha, viva uma vida que ela, sua tia, nunca pode ter, ou seja, uma vida aventurosa e repleta de romantismo, no sentido mais crasso do termo.

            Mr Morris Townsend é o pretendente que, na verdade, almeja conseguir a herança e os bens de Catherine. É bastante semelhante ao pai de Catherine na medida em que tem um entendimento pragmático da vida e, assim como Dr Sloper, não leva Catherine, suas opiniões e aspirações a sério.

            Catherine, por sua vez, é uma jovem inocente e “pura” que, ao longo do romance, vai apreendendo o que cada uma das pessoas que a cercam querem e como influenciam suas vidas. Ao término do romance, Catherine é uma mulher madura o suficiente para saber qual o seu lugar e aceitar suas próprias opiniões e escolhas de modo mais sereno e decidido, mesmo que elas representem sua solidão.

            O roteiro da história é bastante comum, especialmente se levarmos em conta o quanto de histórias bastante similares foram contadas desde a primeira publicação do livro, em 1880. Pode-se argumentar que o crescente auto-conhecimento de Catherine e as conseqüências dele advindas seriam um advento no tratamento de personagens femininas em romance, o que é a mais pua verdade. Mas isso não é o suficiente para explicar a longevidade e a genialidade subjacentes à obra.

O que realmente transforma Washigton Square em um clássico absoluto é, em minha opinião, a forma como James estrutura sua narrativa. Experimentações e questionamentos das mais diversas ordens são a tônica. Procedimentos que somente reforçam a idéia de estar James em meio a questionamentos de maior amplitudes, como mencionando anteriormente.

É por meio da voz do narrador que podemos inferir alguns desses questionamentos de modo mais direto e eficiente. A voz do narrador, que não é a do autor de forma alguma, é ora vacilante, ora onisciente, ora questionadora, ora possuidora de conhecimentos os quais não quer compartilhar com o leitor. A voz do narrador é cambiante e pode refletir a própria insuficiência de meios possuída por James no tangente a como contar sua história de modo suficientemente satisfatório. É válido lembrar que James, além de ser um esteta por excelência, buscava que seus livros fossem lidos pelo maior número possível de pessoas – um paradoxo por si só, que, muito provavelmente, é também refletido no voz do cambiante narrador.

Outra fonte para a apreensão de tais questões é a protagonista do romance. Catherine, como a mulher de então, como o artista de então (e, acredito, de hoje ainda), se via oprimida por três visões distintas que, de um modo ou de outro, somente contribuíam para que sua própria visão de mudo, seu próprio entendimento fosse cada vez mais postos de lado. A mulher deveria agradar ao pai, ao pretende, oponentes entre si, e se adaptar a um modo de agir esperado de seu sexo, ou seja, aquele defendido por sua tia, um modo absurdamente romântico de se encarar as coisas. O artista estava na mesma posição. James estava na mesma posição.

Entre um novo público leitor burguês, uma tradição romântica e o Realismo literário. Onde poderia um artista se encaixar? A quem deveria ceder? Deveria abrir mão de uma perspectiva única e pessoal em prol de qualquer uma das três outras opressivas visões? Se levarmos em conta o destino de Catherine, não. É melhor ficar sozinho e levar suas concepções e visões em conta do que ceder em prol de algo no qual não se acredita, não se pode acreditar.

O mesmo pode ser dito em relação à nação que então ainda engatinhava. Deveria ela seguir a tradição européia, criar suas próprias tradições ou nenhuma das duas coisas. E como representar em formato de narrativa o questionamento que James se fazia acerca de sua pátria? Como representar uma nação sem tradição em um formato tradicionalmente europeu? Por um viés romântico, realista ou por nenhum dos dois? No meu entender, James optou por um caminho outro que não aqueles já estabelecidos, mesmo que se use deles para galgar uma escrita original e pessoal.

Washington Square  e as experimentações narrativas únicas e fantásticas de James somente deixam mais claras as afirmações acima feitas. Se o livro não foi recebido bem em seu lançamento, talvez seja por que, como Catherine, James preferiu ser solitário e fiel a sua concepção de mundo do que ceder a ponto de desfigurar seu próprio entendimento das coisas. Um entendimento genial, que pode ser, hoje, apreciado. Mesmo que muitos dos questionamentos ali presentes ainda vigorem de forma bastante efetiva.        

             

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~ por tarsodoamaral em 21/09/2008.

2 Respostas to “Breve Comentário sobre Washington Square de Henry James”

  1. Bom texto camarada,

    Queria parabenizá-lo por artigos desse naipe, que corriqueiramente escreve. Pra mim que vivencio diariamente o mundo das exatas, tenho grande carência desse tipo de informação, seu texto torna esse conhecimento mas prazeroso, até porque é nítido o prazer que tem ao abordar esse assunto, eu na postura de leitor, bato palmas por essa iniciativa, posso dizer que termino de ler com vontade de conhecer mais esse mundo literal.

    Vlw rapa!!! … t+.

  2. Valew, Raul.
    Só de saber que alguém se dá ao trabalho de ler o que escrevo já é incentivo suficiente para continuar escrevend. Que meus textos inspirem alguém a querer conhecer mais sobre um mundo que tanto me fascina é mais do que poderia pedir.
    Mais virão.
    Grande abraço.
    t+!

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