Neil Gaiman: Neverwhere

            Neverwhere [chamarei assim o livro por que o intraduzível e genial título original é incrivelmente melhor do que sua versão em português: Neverwhere = Neverland(Terra do Nunca) + nowhere (lugar nenhum), substituído em português pelo insípido Lugar Nenhum] é um série escrita pelo mestre dos quadrinhos Neil Gaiman (Gaiman participou nesse ano como palestrante da última FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty – e bateu todos os recordes de número livros autografados desde a primeira da Festa). A série foi transmitida em 1996 na BBC e, no mesmo ano, teve seu roteiro adaptado para o formato de romance pelo próprio Gaiman e lançado como um livro. É sobre essa adaptação o presente texto.

            Gaiman é o criador do personagem Sandman (uma variação de uma antiga e lendária figura da cultura popular de alguns países europeus), o que, apesar do sucesso e reconhecimento do valor dos roteiros por ele escritos para as histórias de tal personagem, não lhe asseguram, pelo menos não em um primeiro momento, um imediato e correlato talento para a escritura de romances. O romance somente ratifica tal idéia.

            Não há nenhuma espécie de experimentação com a linguagem e/ou com o formato consagrado dessa forma de literatura (romance). Clichês são recorrentes e desfechos extremamente previsíveis. Uma nítida falta de familiaridade com o formato fica evidente desde o começo do livro.

            No entanto, o mundo criado e explorado por Gaiman ao longo do romance (uma Londres subterrânea povoada por personagens fantásticos e coexistente com a cidade inglesa original) consegue fazer com que a leitura seja bastante prazerosa.

            A autora americana Poppy Z. Brite, cujo comentário sobre o romance de Gaiman vem na contracapa da edição nacional, tenta associar o mundo de Neverwhere com aquele de Alice no País das Maravilhas, clássico de Lewis Carroll: uma grande bobagem. Gaiman é um nítido principiante, whereas Carroll é um mestre absoluto e indiscutível. O único ponto em comum é a criação de um mundo fantástico paralelo ao “real” no qual transitam os protagonistas de ambas as histórias.

            O valor do livro, no meu entender, está na profundidade dada por Gaiman ao mundo por ele criado. Um mundo complexo, cheio de referências bem sacadas ao “mundo real” e com regras e funcionamentos próprios. Os personagens que por esse mundo transitam, contudo, são rasos e imutáveis, mas cativantes e bastante críveis: talvez o fato de ter sido adaptado de um formato dramático possa explicar o porquê de os personagens tenderem tanto para caricaturas.

            No geral, um bom e leve divertimento para desanuviar. Nada muito além disso. Pop como um bom gibi, e não um romance, deve, ou deveria, ser. Para quem gosta de histórias em quadrinho e/ou mundo fantásticos, um prato cheio. Para quem procura literatura mais de qualidade mais apurada, pouco atrativo. Fiquei entre uma coisa e outra e consegui, ao final, me sentir recompensado pela leitura. É o suficiente… 

             

 

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~ por tarsodoamaral em 21/09/2008.

2 Respostas to “Neil Gaiman: Neverwhere”

  1. Imaginava algo bom, mas nada surpreendendo, pois o pouco que li de Sandman também não foi nada surpreendendo, mas é algo feito com bastante zelo. Depois vou dar uma conferida no livro … bem depois … (rs).

  2. Raul, talvez as revistas sejam o suficiente.
    T+!

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