Metallica – Death Magnetic: future and past, they disagree

O título do novo álbum do Metallica, “Death Magnetic”, foi tirado de um dos versos da última faixa, e uma das melhores, do álbum, My Apocalyse. Um outro verso da letra da mesma música, no entato, me parece mais representativo do álbum como um todo: “future and past, they disagree” (“passado e futuro, eles discordam”)

O disco novo do Metallica é muito bom. Até aí nada demais: todos os outros discos da banda também o são (com exceção de S&M” e, talvez, Reload”, que, se não são ruins, também não são muito bons) Mas todo o falatório sobre o disco não acontece por que ele é mais um disco muito bom do Metallica. Não. O disco tem um tom Metal (com M maiúsculo) não presente nos álbuns da banda há 20 anos, ou seja, desde o clássico …And Justice For All”. Justo com esse tom mais Metal, volta, não gratuitamente, o antigo e também clássico logotipo da banda (aquele do M inicial e do A final alongados). Mas até aí nada. O disco poderia ser um amontoado de clichês e repetições massantes de modelos gastos e ineficientes. O que se ouve é exatamente o contrário.

Sim, o Metallica voltou a fazer Metal com M maiúsculo: mais quadrado, com bastante riffs com palhetas frenéticas, cordas abafadas, bumbos duplos, músicas longas, muitos solos, guitarras dobradas, música instrumental…Mas “Death Magnetic”, como já dito, não é um repeteco de clichês e formatos. Não. Mais uma vez o Metallica se reinventou e injetou gás e uma lufada de ar novo no cenário muitas vezes monótono do som pesado.

“Death Magnetic” é um disco que teria tudo para ser uma tentativa frustrada de lembrar, emular, remeter a um passado clássico, grande, groundbreaking, mas já deixado pra trás há, pelo menos, 15 anos. Na verdade, a banda consegue o que muitos, e me incluo nesse grupo, pensavam ser impossível: fazer um disco de Metal mais condizente com seus 4 primeiro álbuns de estúdio sem soar chato ou datado.

O novo álbum do Metallica, apesar de todos os elementos remissivos ao passado, dá um passo adiante. Se os elementos thrash estão lá, o vocal bem mais limpo, apurado e melódico de Hetfield também está, vocal esse lapidado cuidadosamente ao longo da era Bob Rock (fase posterior aos 4 primeiros álbuns da banda); Se os bumbos duplos e levadas de baterias retas estão presentes, um refino no jeito de tocar e a produção da bateria estão bastante diferentes; os riffs thrash dividem espaço com outros bastante “modernos”, ou seja, nada thrash e bastante característicos da fase Bob Rock da banda; e, particularmente, não me lembro de um disco da época áurea do movimento thrash, do Metallica não, com tantas quebradas de tempo e riffs diferentes em cada uma das músicas de um álbum (Megadeth e Death, talvez?); se a produção ficou a cargo do mago Rick Rubin, que já vez mágica com discos clássicos de bandas pesadíssimas como Slayer, System of a Down e Slipknot, também se beneficiou das experiências de Rubin com artistas como Shakira e Justin Timberlake.

Para mim a música que mais represente o álbum e é um ótimo exemplo do que tentei explicitar no parágrafo anterior é a faixa All Nightmare Long. Essa faixa é bastante pesada, tem muitos elementos thrash, mas um refrão bastante melódico e com um riff ótimo, não por que pesado, uma vez que não o é. Os solos, a base, a bateria reta estão todos lá. Mas as quebradas de tempo inesperadas, as mudanças de levadas, a variação de riffs, tudo é diferente e novo. O Metallica nunca soou assim antes. Já soou pesado, talvez até bem mais do que nesse álbum, mas não assim. Existe novidade em tudo isso. E isso é ótimo. Isso é Metallica. Gostem ou não, isso sempre foi o Metallica: a reinvenção do Metal .

Não tenho, e acho que ninguém tem, como dizer o que levou a banda a fazer esse novo álbum, isto é, o que os levou a adotar uma postura mais voltada para o encadeamento de riffs e levadas mais Metal, do que para a elaboração de canções de rock pesado, a tônica nos últimos 18 anos, no meu entender. Parece que retomaram o fio condutor que haviam abandonado antes do início do Black Album, por medo de as músicas ficarem grandes demais, ou complexas demais, como os próprios músicos já declaram. Pois bem, aí está.

As músicas são sim,bastante complicadas, densas e difíceis. Mas são ótimas. O compromisso com o formato canção, é, talvez, o menor da trajetória da banda. O expurgo Saint Anger” tem aqui seu papel: o de dar à banda a liberdade de explorar, dentro do formato pesado, outras possibilidades há muito, talvez, nem consideradas. “Saint Anger”, um disco odiado por muitos, principalmente devido ao som de sua bateria (?!?) foi um salto na direção da não-canção. É óbvio que o formato canção ainda é o de composição da banda, mas nesses dois últimos álbuns esse formato é claramente posto à prova e levado a seus limites. Nem em todas as músicas, mas os aquis e alis são mais do que suficientes para tornar tudo mais interessante, novo e diferente.

É em “Death Magnetic” disco também que podemos ouvir, pela primeira vez na carreira da banda, um piano em primeiro plano, em The Unforgivem III (estando The Unforgiven no “Black Álbum” e The Unforgiven II no “Reload”. Ruptura? Sinceramente, creio que não. Continuidade? Definitivamente, sim).

“Death Magnetic” causou e causa rebuliço devido à incapacidade de uma grande fatia de apreciadores de som pesado de perceber o que o Metallica fez nos últimos 17 anos como uma outra faceta dessa excepcional banda de Heavy Metal. Nunca foi uma questão de se poder ou não, mas de se querer ou não. E dessa vez, sabe-se lá por que, a banda optou por um formato mais próximo daquele presente em seus primeiros álbuns. Isso desmerece o que foi feito nesse ínterim? De modo algum. Se o Metallica ajudou a redefinir o Heavy Metal e a definir o Thrash Metal no início de sua carreira, ele também o vez desde o lançamento do “Black Album”, além de ajudar a propagar como poucas bandas esses mesmos estilos; A produção Bob Rock estabeleceu padrões ainda hoje não igualados; Load” fomentou uma discussão sem precedentes sobre a estética, relevância e opções de um estilo de música e de vida; sem contar, é claro, com um punhado de ótimas canções feitas de 1991 até 2003, canções essas que introduziram a muitos um novo modo de encarar música e (por que não?) a vida.

Agora, se alguns headbangers saudosistas acham que a banda ressurgiu, ou voltou das cinzas, ou algo que o valha, é melhor rever seus conceitos. Quem está voltando das cinzas não é bem a banda em questão, mas sim o ouvinte. Bem-vindo, novamente, ao Heavy Metal feito novo de novo.

 

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~ por tarsodoamaral em 01/10/2008.

11 Respostas to “Metallica – Death Magnetic: future and past, they disagree”

  1. É tudo muito justo, mas não acho que o Metallica nunca tenha feito algo que soasse tão com riffs diferentes e tempos quebrados. Acho que vc tá na mesma que eu, de tanto já ter ouvido o “..and justice…”, já não percebemos mais o quão quebrado e megalomaníaco é aquele disco. A diferença é apenas as outrsa observações que vc fez: james com voz mais limpa, o lars mais econôimco, os acrescimos da época bob rock nos moldes atuais, etc. De resto tá tudo OK.

    e, lém do mais, convenhamos que os conterrâneos do Metallica, ultimamente tbm lançaram discos que são verdadeiras pedradas. De certo, o Metallica não abraçaria o emo (ahahahah). Logo, vamos tocar metal, o argumento deles é já t erem utilizado muita coisa diferente. Já tivera a década de 90 pra desconstruir o queeles fizeram antes. Agora, querem voltar com a velha formula que acabou renovand o osom, etc.. Bem, enfim, é Metallica é tá bom é o que importa. O resto é resto!

    abraços garotão!

  2. Gostei do novo álbum, algo realmente velho com cara de novo, acertaram na dosagem. Mas Tarso, tirando a imparcialidade e botando meu gosto pessoal na cadeira de réu: St.Anger e Reload é muito ruim, muiiiiiito ruim, bota ruim nisso!!!! St.Anger então!! Eu diria que nenhuma música salva, mesmo se trocar a afinação da bateria, que de fato é uma bosta. Vida longa ao Metallica, mas este Metallica … 🙂

  3. Tarso, adorei o review, ficou muito bem escrito, parabéns! Eu adorei o álbum, ele tá crescendo no meu ouvido a cada dia, é surpeeendente, me sinto como quando ouvi Metallica pela primeira vez, e nem me lembro mais de quando ouvi um álbum de Metal do começo ao fim que nem esse… Estou muito feliz pelo Metallica ter me provado errado, e ter feito algo tão bom. Essa mudança e renovação de gás eu credito também ao Trujillo, o cara é um ótimo compositor também, vide o que já fez com Ozzy etc. E, em outras notícias, vocês já leram algo sobre os problemas de masterização? Eu reparei que o álbum tem um master muito alto, resultado de compressão demasiada, e comecei a pesquisar… Li que o cara que masterizou recebeu um mix já com muita compressão, e pouca dinâmica, o que deu um ar de “FM” ao álbum todo, e tava até querendo ser retirado dos créditos do álbum!!. Todos os instrumentos são altos demais. E a dinâmica? Então, uma galera que comparou o master do CD e o ripado do Guitar Hero 3 (foi lançado pra videogame, todas as músicas) e viram que o espectro dinâmico no GH3 tá mais amplo e sem tanta compressão (leia-se, ouve-se mais os instrumentos em particular). E o GH3 foi feito a partir de um mix não comprimido das sessões de estúdio. Eu peguei essa versão e concordo, é diferente, vale a pena ouvir. Tão até pleiteando remasterizarem o álbum! Tem um vídeo no youtube que mostra as diferenças, quem for audiófilo, procurem. Agora, com mais dinâmica ou não… o álbum tá demais, tiro o chapéu, sou mais feliz com um álbum desses pra ouvir.

  4. Rubão, talvez precise tentar ouvir o “justice” novamente com “novos ouvidos”, o que vai ser bem difícil…hehehe
    Só não sei se o que eles fizeram foi voltar à “velha fórmula”, por que, como escrevi, esse disco não é velho, nem é o velho Metallica.
    Raul, novamente, não sei se o que o Metallica trouxe nesse disco novo é algo velho. Sinceramente acho que não. Quanto ao “Reload” e o “Saint Anger”, eu gosto dos dois álbuns, mas acredito que o “Reload” é o menos inventivo da carreira da banda.
    Crispim, primeiramente, valew pelo elogio. Em segundo lugar, concordo com você no que diz respeito ao álbum crescer a cada ouvida. Quanto às diferentes masterizações, já tinha ouvido sobre isso e gostaria de ouvir a versão para o GH3. Se souber onde podemos encontrar para baixar, por favor, avise.
    É isso.
    t+!

  5. Tarso, ratifico meu comentário que houve, sim, resgate da velha fórmuls, o que n]ao significa “se copiar”, pois quando digo resgatar a velha fórumla não me situo apenas no quesito da retroalimentação, pear o que já se fez e refazer. Não é isso – apenas! A velha fórmula que eu digo é utilizar elementos/influências que giram no entorno da obra do Metallica. Como disse o Kirk, voltar, por exemplo, a ouvir o que se ouvia na época. Ele mesmo disse que resgatou os velhos discos do Van Halen, UFO, Michael Schenker Group, etc, que ele tanto ouvia na adolescência. É verdade? Não sei. É verossímil? Absolutamente. Sâo nesses parâmetros que digo que houve um resgate da velha fórmula – o que mais uam vez -, não significa dizer que o Metallica está se repetindo. So Far Away from

    t+

  6. Tarso e pessoal, a versão do GH3 pode ser baixada aqui:

    http://www.torrentz.com/005968d67b4b4a8f6d7785dfc2b8e0573ae6f721

    Pra ouvir, tem q ter um plugin pra reproduzir FLAC (é um formato sem perdas na qualidade do áudio), encontrado aqui:

    http://flac.sourceforge.net/download.html

    Pra gravar os arquivos num CD de música, basta usar esse programa aqui:

    http://www.freedownloadscenter.com/Multimedia_and_Graphics/Misc__Sound_Tools/Burn4Free.html

    Eu já senti várias diferenças no som, me acostumei a versão do GH3, dá pra ouvir muito melhor os fraseados do Trujillo e outros sons que estão “mais atrás” na mixagem, como tom-toms e pratos.

    Quem quiser um help pra baixar o álbum e ouvir/gravar os .FLAC, é só falar.

    []´s, Crispa

  7. Rubens, quando você falou “velha fórmula”, acho que escolheu mal as palavras. Esse álbum é um apanhado de tudo o que fez o Metallica ser Metallica: a sonoridade, melodias, composições boas, músicas com uma intensidade sonora que só eles conseguem fazer, não importa o que os outros tentem. Essas características estão presentes em diversas composições do Metallica, e em algumas (mais recentes), não. Esse álbum resgatou isso, essa “cara” de Metallica. Esse álbum tem identidade. A identidade do Metallica. Eu acho que quando você ouve o álbum, e pensa “puxa, isso parece com álgo do Metallica da era X ou música Y”, não é porque eles usaram a “velha fórmula”, mas sim porque essas músicas são o Metallica que todos aprenderam a gostar. Elas tem identidade, criatividade, são únicas e colam nos ouvidos como não-consigo-me-lembrar-quando.

    Eu realmente estou adorando este álbum.

  8. Rubão e Crispim, é bastante claro que a sonoridade do último do Metallica remete aos discos antigos, não há o que questionar, mas não consigo ouvir esse disco novo como uma reutilização de fórmulas antigas. E, Rubão, entendo e concordo com você quando escreve que os caras voltaram a beber de fontes mais antigas, mas, pra mim, são nítidas, também, referências mais recentes, sejam nos riffs, sejam nas estruturas das músicas, seja no jeito de os caras estarem tocando, enfim…no álbum como um todo.
    Crispim, também estou muito feliz com o novo álbum e o ouço cada vez mais. Mas acho que esse disco novo é realmente uma mistura de elementos mais antigos com outros mais recentes.Como escrevi anteriormente, se, por um lado, o disco remete ao passado, por outro, o Metallica nunca soou assim antes.
    E, finalmente, Crispim, valew pelos links. Vou tentar baixar e oconferir a versão do GH3.
    t+!

  9. Tarso, reload e st.anger é um lixo!! Não vem c/ esse papo de fã!! (rs) … vlw

  10. Raul, o “reload” é realmente fraco, mas não chega a ser um lixo. Já o “St Anger”, eu gosto muito. Talvez por que seja fã… (eu sou um fã?)
    t+!

  11. Ok ok … lixo não é, afinal com tanto CD do Queen no mercado fica difícil ter algo pior, não é? (rs) … 😛

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