O Piazzolla que conheço

          

 Não sou músico, muito menos estudioso de música. Sou um apreciador comum. Gosto muito de ouvir música. Sempre gostei. O que não me autoriza, de modo algum a tratar de música, músicos, obras e compositores de modo aprofundado. Trato-os como eu sei. Com os recursos que tenho: os recursos de um ouvinte leigo. E foi como ouvinte leigo que conheci e me apaixonei pela música de Astor Piazzolla.

            Meu primeiro contato relevante com o tipo de música feito com maestria por Piazzolla, o tango, foi um tanto quanto enviesado. Foi através de uma trilha sonora, na verdade, da trilha de um dos meus filmes favoritos: Waking Life. Essa trilha é composta em sua quase totalidade por composições de um grupo texano chamado Tosca Tango Orchestra. Tudo bem que o tango dos caras é um tanto quanto estranho, afinal de contas, é uma banda texana. Mas ainda assim, as músicas são fantásticas e completam as imagens do filme de modo excepcional. E, na pior das hipóteses, serviram para me introduzir a um mundo completamente novo que me fascina mais e mais, dia após dia.

            Após ter emprestado uma cópia do Waking Life para minha eterna mestra, professora Vera Lima, e após ela ter visto o filme, ela me disse que ouviu bastante um cd que ela tinha com músicas do Piazzolla, que o filme e sua trilha a tinham remetido a esse disco. Pedi o disco emprestado e, hoje, ouço-o, pelo menos, 3 vezes por mês.

            O disco em questão, gravado no CCBB do Rio em 1994, é Piazzollando ao Vivo com Daniel Binelli. Binelli é um dos maiores interpretes de Piazzolla – chegou até mesmo a tocar com ele – além de ser um dos mais renomados nomes do Novo Tango, estilo consagrado por Piazzolla. Assim como seu mestre, Binelli toca o bandoneon, um instrumento com uma sonoridade fantástica e um dos principais atrativos, no meu ver, da música de Piazzolla.

            Quando ouvi o disco, e até bem pouco tempo atrás, não sabia nada disso. O que eu descobri imediatamente foi uma música belíssima, diferente e completamente nova. A partir de então, passei a procurar mais sobre tango, e, especialmente, sobre Piazzolla. Ainda conheço muito pouco, quase nada, para ser bastante sincero, mas o pouco que conheço foi o suficiente para me fazer, até mesmo querer conhecer a terra natal dessa música e do gênio que a tocava.

            Estive na Argentina e pude comprovar que sim, Buenos Aires, tantas e tantas vezes cantada em tantos tangos, tem mesmo o clima desse estilo musical. Um ar melancólico, mas austero; um clima de decadência, mas uma decadência pautada por um respeito próprio muito grande e pungente; e, obviamente, tudo acaba sendo muito bonito.

O cd que trouxe de lá, Astor Piazzolla En Suíte, somente comprova tudo isso. O álbum é composto de três suítes que foram gravadas entre 1969 e 1984. A mais bonita entre elas é “Suíte Del Angel”: qualquer coisa de fenomenal.

            O Piazzolla que conheço não é um compositor de músicas tristonhas e enfadonhas – uma visão bastante difundida e preconceituosa em relação ao tango. Mas sim o gênio expoente de um modo único de encarar a vida: muitas vezes melancólico sim, pois nem tudo é alegria sempre, já que tudo passa, tudo cai. Poder vislumbrar isso com dignidade é o melhor que podemos fazer; belo, definitivamente; e, finalmente, forte, pungente, por que estar vivo e criar beleza em meio ao caos é, pelo menos pra mim, o maior exemplo de força.

            A música de Piazzolla (e talvez o tango em geral, ainda não sei) é extremamente barroca, o que, por si só, já me agrada. Além disso, é repleta de melodias de uma beleza singular que, quando bem executadas, emocionam. As músicas cantadas são ótimas também, mas talvez um pouco menos digeríveis. E, em geral, as músicas exalam um ar nostálgico que muito me agrada. Uma nostalgia saudável, nada doente. Uma nostalgia que gera o novo, que gera beleza.

            Em última análise, a música de Piazzolla que conheço, do jeito que conheço acalma e engrandece. E isso, para mim, é o bastante.  

 

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~ por tarsodoamaral em 09/10/2008.

4 Respostas to “O Piazzolla que conheço”

  1. Grande Piazolla, realmente um baita compositor. Para quem quiser curtir a obra dele em um formato mais atual, recomendo o astor Piazolla Remixed, muito classudo e ótimo pra ouvir com luz baixa e bom papo. Faz jus ao Piazolla.

    http://www.lastfm.pt/music/Various+Artists/Astor+Piazzolla+Remixed

    Para conhecer primeiro, recomendo um fácil de achar, Best Of do Piazolla na americanas:

    http://www.americanas.com.br/AcomProd/580/260279

    Falow!

  2. Crispim, cheguei a ouvir alguma coisa do Piazzolla Remix. É legal mesmo. Mas nunca ouvi um álbum inteiro. Vou dar uma conferida. Quanto a esse best of, é um de capa azul? Por que se for, eu tenho. É bom mesmo, mas, talvez, o Piazzolla instrumental seja mais acessível e sirva melhor de introdução.
    T+!

  3. Vou averiguar … vlw

  4. Raul, caso queira conhecer, tenho alguma coisa aqui. Altissimamente recomendado.
    t+!

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