The Yellow Wall-paper – Charlotte Perkins Gilman

Uma das grandes vantagens de se fazer qualquer curso acadêmico é a exposição a uma enorme quantidade de material desconhecido intermediada por especialistas no assunto. No meu caso, curso uma pós-graduação em literaturas em língua inglesa na UERJ. Desde o início do curso, já fui apresentado a diversos autores geniais e já tive contato com obras maravilhosas (outras nem tanto assim).

No entanto, um dos melhores momentos desse curso de pós-graduação aconteceu recentemente, quando da leitura do conto “The Yellow Wall-paper”, de Charlotte Perkins Gilman. Uma releitura, na verdade. Releitura por que já havia lido tal conto nos meus idos tempos de graduação. Lembro de ter ficado bastante impressionado com a leitura. Mas não me lembrava nem o nome do conto, nem da autora, nem de quase nada, pra ser bem sincero. Recentemente, como anteriormente mencionado, tive que relê-lo como parte do curso da pós. E, novamente, fiquei extremamente impressionado com o texto.

Gilman (1860-1935) é um baluarte do movimento feminista. Sempre lutou por melhores condições de vida para as mulheres e foi extremamente contestadora da sociedade essencialmente patriarcal na qual estava inserida. Seu mais emblemático texto é exatamente “The Yellow Wall-paper”, de 1892. Até aí, tudo bem. Mas o que chama realmente a atenção, pelo menos a minha, é a qualidade do texto em questão.

É óbvio que o conto pode ser encarado como um nítido libelo feminista, o que, sinceramente, acredito que seja. Mas é mais do que isso. O texto tem uma qualidade de clássico. Clássico, para mim, é toda obra de arte que transcende seu tempo, seu contexto originário e, por que não, as próprias idéias de seu próprio autor sobre sua criação.

Críticos costuma atacar Gilman em relação à falta de cuidado com sua escrita. Não conheço a autora a tal ponto para dizer se concordo os discordo com tal opinião. O que posso sim afirmar é que “The Yellow Wall-paper” é, sem sombras de dúvidas, um dos melhores contos que já li. Por uma série de motivos.

Primeira e obviamente, pelo próprio conteúdo do que é narrado: o enlouquecimento progressivo de uma mulher com uma suposta crise de nervos, após ser trancafiada em um quarto para que pudesse descansar e se recuperar do mal que a afligia. No entanto, o tratamento para esse mal não é visto por ela como o correto a ser levado adiante, mas ela é incapaz de discordar do marido-médico. O que a leva a se degradar diariamente, isolada e deixada a sós, a maior parte do tempo, com seus pensamentos. Pensamentos esses aos quais temos acesso por meio de uma espécie de diário que ela mantém escondido de todos. O conteúdo do diário é o conto em si.

Em segundo lugar, uma das mais relevantes características do conto é a sua capacidade de expor de modo fantasticamente sintético toda uma realidade bastante presente na vida de muitas pessoas no século XIX, especialmente em nossa sociedade ocidental: uma sociedade patriarcal, opressora, ditada pela “razão”. Na brevidade do conto, elementos como a relações homem-mulher, marido-esposa, mulher-mulher, paciente-médico, sanidade-loucura, certo-errado, razão-imaginação, além dos próprios trejeitos, costumes, linguagem e imaginário de uma época são transpostos para o papel de modo magistral.

Um terceiro elemento e, decididamente, o motivador principal para a escritura do presente texto é a forma como a autora consegue transmitir a nós, leitores, tudo o que foi acima mencionado, além de uma crescente angústia perante a situação da heroína(?) da história. Gilman, freqüentemente criticada por sua técnica, é muito mais do que eficiente ao criar um modo de transmitir as experiências, angústias, dúvidas, pensamentos de uma personagem. A idéia do diário é muito bem aplicada, contudo, ao término do conto temos a nítida sensação de que estamos, definitivamente, dentro da mente dessa mulher que progressivamente enlouquece. A Transferência do conteúdo do diário, sobre cuja origem nem nos damos o trabalho de perguntar, para uma espécie de fluxo de consciência é imperceptível e, daí, genial.

A linguagem com a qual a personagem, uma mulher cujo nome não conhecemos, se expressa é o fio condutor dessa viagem ao insólito. Contudo, essa linguagem é criação, é artificial, é arte. Arte cujo engenho, devido à genialidade da autora, é muitas vezes por nós esquecido, ignorado, tido como uma real expressão de alguém que realmente esteve trancafiado em um quarto, etc. Mas, não. Essa mulher é uma criação. Sua linguagem é criação. Tudo que a cerca é criação e, mesmo que tudo seja embebido pelas experiências pessoais de Gilman – que passou ela mesma por um tratamento similar -, é por meio da ficção que temos acesso a essa realidade. Tudo elaborado de modo extremamente sintético, rico em detalhes e, em última instância, intensamente belo.

Charlotte Perkins Gilman é lembrada como uma das maiores combatentes pelos direitos das mulheres de todos os tempos. O que ela é, sem sombras de dúvidas. Mas, para mim, ela é a pessoa que me mostrou o quão longe pode o engenho humano ir a fim de procurar o melhor modo de expressão. Gilman leva a prosa, assim como sua personagem, ao seu limite, leva o gênero ficcional ao limite, subverte suas estruturas lógicas em busca do modo mais adequado para se exprimir sua arte e, assim, escreve um dos melhores contos de todos os tempos.

Precisão e expressividade: a língua como veículo para a instauração de uma realidade rica em detalhes, mas essencial e genialmente sintética. “The Yellow Wall-paper” é genial. Um clássico absoluto.

Se puder, leia.

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~ por tarsodoamaral em 27/10/2008.

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