Margaret Atwood – The Penelopiad

Já escrevi por aqui sobre a grande escritora canadense Margaret Atwood. Recentemente, li mais um de seus livros, “The Penelopiad”. Trata-se de um romance que aborda personagens e eventos das clássicas obras de Homero, “Ilíada” e “Odisséia”, pelo olhar e pela voz de Penélope, a fiel e paciente esposa de Ulisses.

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Como era de se esperar, uma obra contemporânea como essa, escrita por uma autora como Margaret Atwood, tem alto teor feminista e se propõe exatamente e desconstruir mitos, personagens e narrativas canonizados. E ela faz isso de modo bastante bem-sucedido.

Se em alguns momentos o discurso de Penélope parece forçosamente contemporâneo demais, por outro, é esse mesmo discurso, assim como o do coro, que dá o tom acido, crítico, subversivo do romance.

À medida em que dá uma voz àquela que é tradicionalmente conhecida por esperar pelo marido, por ser a ele absurdamente fiel, Atwood subverte o tom épico, a tradição, os mitos relacionados à obra homérica. Em uma abordagem bastante original, ela também se remete ao coro que tradicionalmente comentava os eventos no teatro grego da antiguidade. Mas em “The Penelopiad”, o coro é composto pelas vozes das serviçais de Penélope e Ulisses que, de acordo com a epopéia original, foram brutalmente assassinadas por seu senhor sob a alegação de crimes contra sua, a do senhor, honra. Esse coro é, do mesmo modo que a Penélope de Atwood também o é, altamente subversivo e dá um colorido todo especial à obra.

É igualmente interessante notar a diferença do tratamento da“Odisséia” feita pela canadense em relação ao notório uso feito por James Joyce em seu clássico “Ulisses”. Aqui a diferença de abordagens da tradição ocidental feita por escritores nos inícios do presente século (Atwood) e do século passado (Joyce) fica nítida e latente. Se em Joyce, a obra de Homero servira de norte, de uma espécie de esquema estrutural que auxiliava o romancista irlandês a dar uma forma ao caos que tentava representar, em Atwood “A Odisséia” é parodiada a fim de auxiliar na desconstrução de mitos muitas vezes nocivos que vêm atravessando gerações.

Mais um excelente livro escrito por Atwood. Livro esse que lança luz sobre uma das mais emblemáticas obras da cultura ocidental, contudo sob um prisma diferenciado e bastante interessante.

Altamente recomendado.

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~ por tarsodoamaral em 02/08/2009.

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