Mia Couto – Antes de Nascer o Mundo

Como alguns já devem saber (e o que relatarei a seguir me mostrou que esses alguns são mais do que eu pensava) há quatro anos (parece que são mais) que vou a FLIP. Esse ano, por diversos fatores, não pude ir. No entanto, o que me chamou a atenção foi a quantidade de pessoas a perguntar sobre a minha (não-)ida ao evento. Não foram poucos aqueles que me perguntaram se eu tinha ido ou, se não, por que. Uma dessas pessoas, um aluno meu de longa data, não só me fez as perguntas, como disse ter lembrado de mim ao ganhar um livro de um dos autores que estariam presentes na edição desse ano, 2009, da festa literária. O autor era Mia Couto, o livro “Antes de Nascer o Mundo”, seu último lançamento e motivo principal de sua vinda ao Brasil.

Meu aluno fez questão de deixar o  que ganhara comigo e, por minha vez, fiz questão de o ler. O considerei como um presente da minha não-ida à FLIP, uma espécie de prêmio de consolação. E a leitura da obra só confirmou o meu entendimento de ser ela uma espécie de presente.

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Trata-se de um livro belíssimo de uma extrema sensibilidade. Não conheço a obra de Mia Couto, mas, caso possa tomar “Antes de Nascer o Mundo” como um parâmetro para a escrita do moçambicano autor, estamos diante de mais um grande escritor da língua portuguesa.

Couto, nesse livro, desenvolve, com uma linguagem de alto teor poético, um lindo romance sobre amor, morte, família, nação e as imbricações de tudo isso e de tantos outros fatores. A linguagem poética da qual Couto lança mão, em vários momentos, lembra aquela de Manoel de Barros, o grande poeta contemporâneo brasileiro. Um breve exemplo da capacidade de gerar imagens fortíssimas, belíssimas do discurso criado por Couto pode ser vista em uma descrição de uma das principais personagens da trama que, havia se arrumado, se vestido muito bem e como isso a fazia se destacar na multidão: “Parecia, sei lá, um cubo de gelo num copo. Disputando a superfície, reinando no cimeiro lugar até o tempo de voltar a ser água”.

Além de imagens como essa, o livro é recheado de passagens que gosto de chamar de “socos”: trechos muito densos e bonitos, mas que, ao mesmo tempo, lidam com conceitos profundos e pesados e que, em frações de segundos, nos fazem (re)pensar muitas coisas. Feito só conseguido por grandes obras de grandes artistas. Mia Couto é um deles.

Altamente recomendado.

Não fui à FLIP, mas um pouco do espírito de lá veio até mim e foi muito bem representado.

Mais uma vez, obrigado Paraty.

Até o ano que vem.

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~ por tarsodoamaral em 02/08/2009.

2 Respostas to “Mia Couto – Antes de Nascer o Mundo”

  1. Se não foi a Paraty mas conheceu o Moçambique tá valendo também. Taí um continente que deve ser maravilhoso e que nós, falantes de português, precisamos desvendar (não só literariamente). Pelo singelo trecho que você postou, bateu pra mim um jeito de Saramago também, que é outro inventor de imagens fortes, porém bem menos ‘brejeiro’ do que o Manoel de Barros, e que de maneira muito poética também abarca e problematiza todo um pensar. Seja como for, valeu a dica.

  2. bolado, o livro tem mesmo um q de Saramago mesmo. E a associação com o Manoel de Barros também não dá muito a idéia do que é a obra. Mas, pelo menos pra mim, foi uma conexão que fiz imediatamente quando comecei a ler o livro.
    Vale uma conferida.
    Quanto a conhecer a África, é uma coisa que não só nós, mas o mundo tem que ainda aprender a fazer.
    T+!

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