Algumas palavras suscitadas pela leitura de “Freedom”, de Jonathan Franzen

Recentemente, me aventurei em uma empreitada literária que me parecia bastante necessária: a leitura de uma obra de vulto de, ao menos, cinco autores homens contemporâneos de renome que escrevem em língua inglesa. Sobre tal empreitada, pretendo escrever em um futuro bem próximo. O presente texto, no entanto, trata sobre questões suscitadas pela leitura do último romance dessa série de cinco: o aclamado Freedom, do igualmente louvado escritor estadunidense Jonathan Franzen.

‘Talvez’ e ‘angustiante’ são os termos que guiam esse meu texto. ‘Angustiante’ por ser esse o melhor adjetivo que consigo associar a esse último romance de Jonathan Franzen, e ‘talvez’ por motivos que ficarão óbvios à medida que a leitura do texto se desenvolva.

Angustiante por o romance não ter um único personagem com quem eu tenha conseguido simpatizar. O que não quer dizer que sejam personagens mal construídos e/ou não-críveis. Talvez, o contrário seja mais verdadeiro. Talvez.

No entanto, o fato de eles serem tão críveis os torne reais até demais, comuns até demais, não-romanescos até demais. Talvez. Mas, aí entramos em uma outra discussão a respeito do que seriam personagens dignos de figurarem em um romance ou não. E essa seria uma outra discussão, certo? Talvez.

No geral, o romance foca em uma família de classe média norte-americana, os Berlund, e suas agruras ao tentarem se relacionar uns com os outros, à medida que, igualmente tentam se relacionar com o resto do mundo e com algumas questões que tais tentativas possam vir a trazer. E esse foco por si só pode ser encarado como o mérito do romance? Talvez.

Me incomoda a família. Com disfunções tipicamente relativas a esse tipo de família: embate de gerações entre pais e filhos, problemas de casal heterossexual de meia-idade, relacionamentos amorosos, vizinhos, trabalho (ou a falta de), educação (ou a falta de), ética no trabalho (ou a falta de), modelos de conduta (ou a falta de), comportamento mais ou menos “verde” e as conseqüências a ele atreladas em vários âmbitos, inclusive o familiar. Que um romance traga tudo isso em suas páginas é digno de nota por si só, certo? Talvez.

Muitas vezes, especialmente durante alguns (muitos) diálogos tive a impressão de estar lendo o script de uma novela… O que, como o próprio Franzen afirma ser um aspecto positivo, pode fazer com que a obra alcance um público maior – o romance foi o best-seller número 1 nos EUA. O que é ótimo, certo?

O romance de Franzen me parece também angustiante por, ao longo de sua considerável extensão (quase 600 páginas), problemas comuns de pessoas comuns serem esmiuçados, em sua maioria, por meio de supostos vieses psicológicos e relacionados a questões sociais de modo canhestro, raso e insuficiente. Mas sempre tentando levar o leitor a crer que é exatamente dessa forma que devem ser tratados tais tipos de problema, pois, afinal de contas, são problemas comuns. 600 páginas para tal empreitada me parece um pouco demais. Talvez não sejam.

O romance me pareceu ainda mais angustiante ao seu término, no qual as centenas de páginas anteriores são rapidamente resolvidas de modo a trazer o turbulento curso de sua narrativa basicamente niilista e misantropa de volta a sua suposta calma-normalidade que nos é apresentada como essencialmente falsa no início do próprio romance. O romance é, então, a (mera) representação de uma crise (familiar? social? mundial?)? Se sim, vale por isso mesmo, certo? Talvez não.

O romance me parece igualmente angustiante devido a sua pouca (se é que alguma) experimentação com a linguagem em si, e com a linguagem romanesca. O romance serve para contar uma história, certo? Talvez não só para isso.

Tem-se dito que os romances de Franzen parecem com romances do século XIX. Consigo entender tal comparação, caso levemos em conta o número de páginas. Contudo, me parece que o século XIX ainda não tinha definido para si mesmo tão claramente o que era a linguagem de um romance, quais eram seus limites. O que tornava o gênero extremamente rico, pois ainda descobrindo suas possibilidades. Franzen parece saber exatamente o que quer e como escrever. O que é ótimo, certo? Talvez não.

Angustiante o romance me parece, ainda mais, pois li cada uma de suas palavras e me encontro aqui escrevendo um texto sobre ele, mas, até o momento, sem ao certo saber se por ter gostado ou não do romance. Tendo a acreditar que por não ter gostado, apesar de inegavelmente lembrar vivamente de passagens de fato memoráveis. Passagens essas que são solapadas por outras, igualmente vívidas em minha memória, risíveis, não por serem necessariamente engraçadas.

Um dado relevante, Frazen afirma se encarar essencialmente como um autor cômico. Difícil entender tal assunção, a não ser por motivos errados.

Que Freedom é um trabalho de fôlego com questões ditas ‘atuais’ sobre a sociedade americana parece não haver dúvida. E, nesse mundo cada vez mais globalizado, e americanizado, questões referentes aos EUA, na verdade, dizem respeito ao mundo todo, certo? Talvez não.

Mas, no fim das contas, me parece muito angustiante um estadunidense romance escrito por um nativo dos EUA, no século XXI ainda insistir na questão de como o chamado ‘sonho americano’, com seu ideal de família e tudo a ele associado, falhou, de como é uma fraude. Mas todos já sabemos disso, certo? Talvez não.

A não realização desse sonho, a percepção de ser ele na verdade uma tosca fraude, em Freedom, é sinônimo de misantropia, de niilismo, pelo menos até um pouco antes do final da obra. Como um trecho da obra ilustra, “the personality susceptible to the dream of limitless freedom is a personality also prone, should the dream ever sour, to misantthopy and rage”.

O fato de não haver personagem de quem se possa efetivamente gostar me parece estar bastante relacionado a uma idéia de não gostar de pessoas em geral. Os personagens são misantropos, seus ideais políticos também, e o romance, como um todo, me parece o ser também. O que não me soa como algo positivo.

Mas, talvez, eu não tenha entendido a piada.

Talvez.

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~ por tarsodoamaral em 10/12/2012.

4 Respostas to “Algumas palavras suscitadas pela leitura de “Freedom”, de Jonathan Franzen”

  1. Caraaaaaaaaaca, estou me sentindo o máximo em ver q a gente concorda! Quero dizer, concorde… talvez! hahahahaha Eu fiquei com uma certa ressaca desse livro, né, o q indica q deve haver algo nele para mim ainda q inconscientemente. Mas eu não vi nenhuma tentativa de analisar os probs dos personagens, nem socio nem psicologicamente. Vi só os problemas em si. Se for isso, tvz isso seja intencional; afinal, a vida vem crua sem nada para explicar.

    (E talvez daí tb a superficialidade, pois é assim q a contemporaneidade lida com o humano. Sei lá. Fui mto além da minha alçada agora.)

    Sb o sonho americano, bem, acho q os americanos não perceberam ainda q ele está morto e enterrado, não… hahaha a repetição da msg se faz sempre necessária.

    Sb a linguagem, o próprio autor diz q seu objetivo é tê-la cada vez mais transparente, como eu falei lá. De fato, a linguagem de Freedom é mto mais transparente que a de Corrections, q eh mto anterior. Inclusive, antes de vc descartar o Franzen de todo, digo e repito: leia o 1o capítulo de Corrections. Só o 1o cap já vale!

    Mas é o q eu disse lá no Facebook: eu tb achei Freedom transparente demais, literário de menos… até eu tentar ler logo depois um best-seller-de-verdade. Puâts. Num instante dá pra ver a diferença! A gente fica lendo coisa boa e esquece como o povo escreve por aí. Hahahaha

  2. Natália, concordo com você que a impressão final é a de que os problemas são muito mais apresentados do que efetivamente discutidos. Mas, como você mesmo apontou, talvez (?!?) seja essa mesma a intenção. O que pode ser uma forma de encarar as coisas. Não sei se a melhor…
    Também li que ele tem um cuidado maior e mais consciente com a linguagem no “Corrections”, mas não sei se, depois do “Freedom”, quero ler seu antecessor. Talvez heheheh
    Com relação a ser literário de menos e trasparente demais, esse é o problema central pra mim, em relação a esse e a outros livros do mesmo porte: é inegável que o livro é uma obra de fôlego que levanta algumas questões importantes. Sim. Mas será que é isso o esperado de um grande romance, nos dias de hoje? Sinceramente, espero que não.
    O que me assusta mais ainda é a repercussão que a obra e, consequentemente, o próprio Franzen alcançaram. Um reconhecimento que vai do Clube de leitura da Oprah, passando pela capa da TIME, até chegar à Flip e a nós dois, humildemente, tentando fazer algum sentido da obra.
    E, sim, me incomoda muitíssimo o uso da linguagem como algo essencialmente transparente.
    Enfim, que o livro mexeu comigo, mexeu, mas não sei se do jeito que era esperado… hehehe

  3. ah, só o 1o cap do corrections, vai! é como um conto! 🙂 se vc não gostar, aí sim justifica desistir dele. o 1o cap deve até ter de graça na amazon, ó! 🙂

    mas vou te dizer q eu soh li o corrections pq o fiz antes de saber qq coisa do franzen. qd vejo entrevista dele (como na flip) ou leio as coisas q ele escreveu (até a wikipedia fala de um manifesto), acho o cabra um ridículo. por sorte, a obra é maior q o autor. às vezes é melhor ñ saber da matéria circundante. ignorance is bliss e tal e coisa.

  4. Ok, Natália. Prometo que, qualquer dia desses, dou uma chance pro “Corrections”…hehhe. Mas, por enquanto, tô legal de Franzen.
    tem uma entrevista que ele deu pra “Paris Review” (http://www.theparisreview.org/interviews/6054/the-art-of-fiction-no-207-jonathan-franzen), em 2010, por meio da qual da pra ter uma boa idéia do pensamento dele sobre literatura, sobre as obras dele, processo de criação, etc.
    Não me agradou muito, mas é inegavelmente coerente com o resultado final de “Freedom”, pro bem ou pro mal.

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